22/12/2025
O que mais assusta não é apenas a ausência do genitor que foge das suas obrigações há anos.
É a naturalização dessa ausência.
Mães solos recorrem às redes sociais não por vingança, mas por desespero. Depois de 5, 6, 7 anos aguardando uma resposta da justiça gratuita, da defensoria pública que “existe no papel”, mas não na prática, o cansaço vira grito. Quando o Estado não garante o mínimo pensão, responsabilidade, dignidade essas mulheres são empurradas para o julgamento público.
E então surge o tribunal mais cruel: o dos comentários.
Homens que nunca gestaram, nunca pariram, nunca acordaram de madrugada para um filho doente, sentem-se confortáveis em dizer que “a intuição feminina falhou”. Como se abandono fosse erro de escolha, e não falha de caráter de quem abandona.
Mais doloroso ainda é ver mulheres reproduzindo o mesmo discurso violento:
“abriu as pernas”, “já sabia quem era”, “eu consegui sozinha”.
Transformam a própria dor em régua para medir a dor da outra, como se sobreviver justif**asse o abandono, como se trabalhar exausta com um bebê de dois meses fosse motivo de orgulho coletivo e não de indignação social.
E há um detalhe que escancara o descaso: a maioria desses comentários vem carregada de erros absurdos de português. Não é sobre gramática é sobre acesso. Falta de educação, de informação, de consciência social. Pessoas que também foram negligenciadas pelo sistema, mas que escolhem atacar quem está mais vulnerável, em vez de questionar quem deveria proteger.
Não, expor alguém nas redes não é o caminho ideal.
Mas até quando essas mulheres terão que esperar sentadas por uma justiça que nunca chega?
Até quando a sociedade vai normalizar o abandono paterno e responsabilizar exclusivamente quem ficou?
Maternidade solo não é medalha de honra.
É consequência de um sistema que falha com mulheres, com crianças muitas delas atípicas e com o futuro.
Enquanto a justiça fecha os olhos, a internet vira palco.
E o julgamento, mais uma vez, recai sobre quem nunca fugiu: a mãe.