10/01/2026
O Torcedor-Imóvel e a memória de Lumumba
Na arquibancada, ele não grita. Não p**a. Não vibra. Vestido com as cores da República Democrática do Congo, permanece imóvel, sério, quase solene. Para quem olha rápido, parece folclore. Para quem conhece a história, é um gesto político. Aquele torcedor não representa um jogador, nem um time. Representa Patrice Lumumba e tudo o que tentaram apagar com ele.
Lumumba não nasceu herói. Nascido em 1925, foi carteiro, funcionário público, jornalista autodidata. Leu muito, observou mais ainda. No Congo belga, onde a violência colonial convivia com discursos civilizatórios, aprendeu cedo que a independência prometida pelos europeus tinha limites bem definidos. No início, acreditou numa transição negociada. A realidade tratou de desmenti-lo.
Em 1960, liderou o Congo à independência e tornou-se o primeiro primeiro-ministro eleito do país. No discurso de posse, rompeu o protocolo e disse o que não devia: lembrou os abusos, a exploração, o racismo e a violência do colonialismo belga. A partir dali, passou a ser visto como problema. Em plena Guerra Fria, foi rotulado como pró-soviético. Lumumba negava. Não era comunista. Era anticolonialista. Queria algo simples e inaceitável: soberania real sobre o próprio território e seus recursos.
Seu governo foi sabotado desde o primeiro dia. A secessão de Katanga, apoiada pela Bélgica, o isolamento internacional e um golpe interno levaram à sua prisão. Em janeiro de 1961, Lumumba foi assassinado. A Bélgica participou diretamente. Os Estados Unidos consentiram. O corpo foi dissolvido em ácido, como se assim fosse possível dissolver a ideia.
Não foi. Lumumba tornou-se símbolo de uma África que recusou a tutela europeia ontem colonial, hoje neocolonial. Por isso o torcedor não comemora gols. Ele não está ali pelo placar. Está ali pela memória. Imóvel, ele lembra que a independência africana não terminou em 1960. Para muitos, ela ainda está em disputa. E Lumumba continua de pé.